Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

PUNITIONE

Os olhos, banhados por lágrimas que teimavam em se desprender das órbitas, deixavam-na contraída, tensa... um pouco envergonhada.

As suas paixões, até ao momento, tinham sido fugazes, superficiais, às vezes ridículas: se calhar, mesmo, nunca esteve apaixonada!

Mas agora sentia que era diferente. Sensações que julgava não existirem apoderavam-se dela nos locais mais inoportunos: na celebração domingueira, no quadragésimo sexto encontro de catequistas (ao qual nunca faltou) ou na venda de rifas para os missionários da Guiné.

Apesar de tudo... foi obrigada a deixar aquele que seria, talvez, o caso mais sério das suas palpitações cardiológicas.

A sua mãe, de oitenta e três viçosas primaveras, proibiu-a de olhar nos olhos do senhor Américo Merceeiro…

 

 viúvo há mais de dois quarteirões de anos!
publicado por A. Carvalho às 07:36
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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

INCERTEZA

Na incerteza do teu querer...

retraio a vontade do meu desejo.

Outras vezes, muitas...

na vontade do teu desejo retraio a vontade do meu querer.

 

Mas... talvez acabe por ceder à vontade do teu querer soltando a vontade do meu desejo (ou talvez não).
publicado por A. Carvalho às 07:32
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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

POENA

Passou por ele (logo pela manhã) toda engalanada.
Parecia um “espanador” colorido de viçosas e brilhantes penas.
Extasiado, ficou a magicar sobre a forma de a seduzir, conquistar-lhe a confiança... e possuir.
Enterrar-lhe, nas partes mais íntimas, o instrumento pontiagudo, pequeno e delgado que tanto prazer lhe proporcionava.
...
Satisfez os seus desejos quando a noite se espreguiçava e acordava de mansinho por sobre um cetim cor de fogo em que o dia se enrolava.
Parecia uma bailarina... Massajou-a com azeite, alho, sal, gindungo mais outras especiarias ditas afrodisíacas e deixou o inevitável tempo correr. Por fim, saboreou-lhe as pernas roliças, o peito carnudo... o rabo, “sensual”.
 
(Sem margem para dúvidas, exclamou: é uma “Franga do Campo”!)
publicado por A. Carvalho às 10:14
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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

INDEFINITU

Talvez me tenhas esquecido.

Eu... ainda retenho um ou outro gesto.

Dois traços do teu rosto.

O cabelo onde enterrava os dedos, o mamilo que me provocava a língua...

os teus pés frios... tu.

 

Quero esquecer-te e lembrar-te… indefinidamente.
publicado por A. Carvalho às 09:17
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